“Temos de prevenir no presente, mas a pensar no futuro”: Governo ouviu apelos à mudança na floresta na conferência da Navigator
A prevenção, a formação e a necessidade de mudanças estruturais na gestão da floresta marcaram a sessão da tarde da conferência promovida pela The Navigator Company, que decorreu esta quinta-feira no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz.
O encontro reuniu responsáveis políticos, especialistas, autarcas e representantes do setor florestal para debater os desafios colocados pelos incêndios rurais extremos e pelos fenómenos climáticos severos que afetaram o país nos últimos meses.
Na abertura da sessão da tarde, Nelson Antunes, da Estrutura de Missão para as zonas afetadas pela depressão Kristin, apresentou dados relativos aos estragos provocados pelas tempestades que atingiram Portugal este ano, referindo prejuízos estimados em cerca de 5,3 mil milhões de euros.
Segundo explicou, foram identificados mais de 41 mil hectares afetados, milhares de quilómetros de rede viária florestal obstruídos e milhões de árvores derrubadas. No pico da tempestade, cerca de um milhão de pessoas ficaram sem energia elétrica e 1,5 milhões sem telecomunicações. “Temos consciência de que temos de melhorar. Temos de executar mais”, afirmou, defendendo uma maior preparação do território e uma aposta contínua na prevenção antes da época crítica de incêndios.
O debate centrou-se depois na gestão do território e na falta de mão de obra qualificada para o setor florestal. Sérgio Morgado, vice-presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, alertou para a escassez de profissionais especializados e defendeu mais formação técnica ligada à floresta. “Temos a melhor maquinaria, mas não temos os melhores recursos humanos”, afirmou, deixando ainda um apelo às novas gerações para valorizarem o trabalho ligado à floresta.
Também Carlos Lobo, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, defendeu alterações profundas na legislação e questionou a dificuldade do país em replicar modelos de gestão considerados eficazes no setor privado. “Se a Navigator consegue gerir território e floresta com resultados, porque é que o país não consegue fazer o mesmo à escala nacional?”, questionou.
Já Ana Carolina de Jesus, vice-presidente da Câmara Municipal de Pombal com o pelouro da Proteção Civil, destacou o trabalho desenvolvido pelo município após os fenómenos extremos registados este ano, revelando que cerca de 2000 das 2400 ocorrências sinalizadas já tiveram resposta. A autarca sublinhou ainda a importância do cadastro dos terrenos para melhorar a prevenção e a intervenção no território. “Sem sabermos de quem são os terrenos, torna-se muito difícil ajudar e intervir”, afirmou.
Durante a tarde foi ainda abordado o impacto dos incêndios na qualidade da madeira utilizada pela indústria papeleira, bem como os investimentos previstos para apoio aos produtores e à gestão ativa da floresta.
No encerramento da conferência, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, garantiu ter acompanhado atentamente as preocupações deixadas ao longo do dia e reforçou a importância da prevenção e da articulação entre entidades. “Temos de prevenir no presente, mas sempre a pensar no futuro”, afirmou o governante, defendendo uma resposta mais preparada perante fenómenos extremos e um reforço da cultura de prevenção no país.

