“Há um salvador, um culpado e um herói”: Ribau Esteves critica narrativa em torno dos incêndios rurais
A gestão da floresta, os incêndios rurais extremos e os desafios da prevenção estão esta quinta-feira em debate no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, durante o Encontro do Clube de Produtores Florestais promovido pela The Navigator Company. A iniciativa reuniu investigadores, responsáveis políticos, especialistas e agentes do setor para debater os desafios colocados pelos incêndios rurais extremos e a necessidade de construir paisagens mais resilientes e melhor geridas.
Uma das intervenções que marcou a manhã foi a do presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, José Ribau Esteves, que criticou aquilo que considera ser uma “narrativa distorcida” sobre os incêndios florestais.
“O fogo tem um salvador, que é o BUPi, um culpado, que é o eucalipto, e um herói, que é o bombeiro”, afirmou, defendendo que esta visão tem contribuído para dar mais destaque mediático “ao negócio do fogo” do que à valorização económica da floresta.
Ribau Esteves considerou ainda que Portugal “tem excesso de planeamento”, mas continua sem conseguir reduzir de forma significativa a incidência dos incêndios, sublinhando que o principal problema está no abandono do território e na falta de gestão ativa da floresta.
Também o administrador executivo da Navigator, João Lé, defendeu que “o fogo não escolhe espécies, escolhe paisagens mal geridas”, apontando como prioridades a prevenção, a gestão ativa do território e o reforço das equipas profissionais de sapadores florestais.
Na abertura do encontro, o presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Pedro Santana Lopes, destacou a importância do papel das autarquias na proteção civil e na gestão do território, defendendo uma maior capacidade de intervenção dos municípios em situações consideradas críticas. O autarca sublinhou ainda a necessidade de reforçar os meios de prevenção e limpeza florestal antes da época mais crítica de incêndios.
Ao longo da manhã, vários especialistas alertaram para o agravamento das condições meteorológicas e para a necessidade de apostar mais na prevenção do que no combate. O climatologista Carlos da Câmara afirmou mesmo recear que 2026 possa tornar-se “um 2003 exacerbado”, numa referência ao ano marcado por incêndios devastadores em Portugal.
Já o investigador José Miguel Cardoso Pereira considerou “ilusório” acreditar que a substituição de espécies florestais resolva o problema dos fogos rurais, defendendo que a solução passa sobretudo pela gestão do território.
Durante a manhã foram ainda apresentados dados sobre a floresta nacional, destacando-se que Portugal continua entre os países europeus com menor área florestal gerida. Segundo os números divulgados no encontro, apenas 2% dos incêndios registados entre 2014 e 2024 tiveram causas naturais.
O programa prossegue durante a tarde com novos painéis de debate dedicados à prevenção, inovação e gestão integrada do território, contando ainda com a presença do Ministro da Administração Interna, Luís Neves.

